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Entrevista com TOMAZ ADOUR,
editor da Papel&Virtual
17/05/2000 - Por Berenice Menezes - Rede de homens e livros
Bertold
Brecht já dizia: "homens que lutam por toda a vida são imprescindíveis".
Quem
abraça uma causa e faz de tudo para atingir o objetivo, certamente um dia
alcança a máxima do filósofo. Se esforço pessoal for um dos
quesitos necessários para o sucesso, o editor da
Papel Virtual com certeza vai chegar lá... Carioca, 28 anos de praia
(ou de livros!), Tomaz Adour decidiu decifrar o mercado editorial brasileiro
ainda na faculdade - não faz tanto tempo assim!
Hoje ele
está à frente da primeira editora virtual do país, a Papel Virtual.
Formado em engenharia e administração, Tomaz sempre teve a literatura como
uma de suas paixões. Por uns tempos, trabalhou como roteirista. O sonho,
porém era outro. Queria viabilizar seu projeto editorial.
Conseguiu,
graças a uma iniciativa da PUC-Rio - e, claro, o rapaz também lançou seu
livro (O mercado editorial brasileiro sob o ponto de vista do autor novo:
dificuldades, barreiras e alternativas de publicação) pelo selo
"digital", no ano passado. A idéia do jovem editor é descobrir
talentos Brasil afora, afinal "um país se faz com homens e
livros".
Monteiro
Lobato estava certo.
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- Como nasceu a Papel Virtual?
Tomaz
Adour - A editora é fruto de um projeto acadêmico. Eu sou apaixonado
por livros desde que me entendo por gente e, na época da graduação,
decidi
fazer a monografia sobre o mercado editorial brasileiro. Isso foi em 93. Em
1994 ingressei no mestrado e foram mais quatro anos de estudo sobre essa área.
A partir de então a pesquisa ganhou outra dimensão. Além do Brasil,
passei a abordar a problemática editorial de outros países. Ainda sim,
delimitei o tema e me concentrei
nas dificuldades que encontram os autores novos no Brasil. Da coleta dos
dados à formação da editora foi um processo longo, mas natural...
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- E como se deu esse processo?
Tomaz
Adour - Há dois anos participei do edital de inauguração da
Incubadora da PUC-Rio e a idéia de montar uma editora virtual tirou
primeiro lugar na categoria de empresa de base tecnológica. A universidade
e o seu Instituto Tecnológico dão credibilidade e oferecem toda a
estrutura. Há ainda as instituições que apoiam o projeto, como o Banco
Bozano & Simonsen, a Prefeitura
e o Sebrae. Inicialmente foi feito um investimento na ordem de R$ 30 mil.
Sem dúvida, o primeiro
passo para a criação da Papiro Virtual.
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- Papiro ou Papel Virtual?
Tomaz
Adour - Existe uma editora em Campinas, também da área acadêmica,
chamada Papiro. Optamos por um novo nome para evitar confusões futuras...
Por isso, em março de 99, surgiu a Papel Virtual.
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- Que dificuldades enfrentaram ao entrar neste novo mercado editorial?
Tomaz
Adour - A equipe começou a trabalhar em novembro de 1998. O plano era
ousado, ninguém conhecia o projeto e não tínhamos divulgação, apenas a
propaganda boca a boca. E mais:
fomos a primeira editora virtual do Brasil. Na época existia uma editora
semelhante nos Estados Unidos - hoje já existem mais de 20 editoras
virtuais na América e a cada mês surge uma.
Mas, a nosso favor tínhamos os dados e o nome da PUC. Sabíamos que existia
um mercado a ser explorado e fomos os primeiros a acreditar nele. No Brasil,
existem editoras semelhantes, como a Evirt. Mas há espaço para todos.
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- Depois de dois anos na estrada editorial, hoje, como está a Papel Virtual
?
Tomaz
Adour - Nascemos bem pequenos e integrando um projeto universitário.
Hoje temos 15 funcionários fixos e estamos nos mudando para um escritório
maior, ainda dentro da PUC. Teoricamente
podemos ficar vinculados à Incubadora até junho do ano que vem, mas
pretendemos sair antes. Para ser desligada da Incubadora, a empresa precisa
faturar R$ 500 por ano. Em 99, alcançamos a casa dos R$ 200 mil e este ano
devemos formar receita na ordem de R$ 1 milhão.
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- Um mercado em total expansão. É possível mensurar a dimensão?
Tomaz
Adour - Cerca de 40 a 50 mil autores são rejeitados pelas editoras
anualmente no Brasil. Não porque os seus projetos de livros são ruins. Às
vezes não chegam sequer a serem lidos. A questão
transcende. As editoras tradicionais fecham seus cronogramas de lançamentos
com dois anos
de antecedência... A idéia é preencher esta lacuna.
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- Se há tantos escritores e editoras no Brasil, por que
tamanha dificuldade para tornar-se um autor conhecido?
Tomaz
Adour - As editoras tradicionais se dizem vidas por autores novos, mas
essas mesmas editoras têm uma visão muito comercial do livro e do autor. No Brasil, para que uma obra seja
publicada é preciso que venda pelo menos mil exemplares. O mesmo
problema acontece nos Estados Unidos e na Europa. O tamanho
do mercado é a diferença - lá é preciso que se venda 7 mil livros para
se obter sucesso. Mas é a mesma história: se a editora recebe, por
exemplo, um projeto
interessante de um livro de filosofia, não vai publicar. Seja no Brasil ou
EUA.
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- Por que não?
Tomaz
Adour - Não interessa nem aos editores, nem às livrarias. Há que
ressaltar que a culpa não é só dos editores. Existe também a questão da
distribuição! As livrarias não podem colocar à venda uma publicação
que vá vender somente 20 exemplares por mês. São lançados 100 livros por
dia no país,
entre lançamentos e reedições. Todos, claro, disputam lugares nas
prateleiras. Existem pouquíssimas livrarias no Brasil - algo em torno de
mil. Na Internet, não existe o problema da distribuição... todos podem
ter acesso às obras mesmo que não tenham computador, além da facilidade
para pagamento e entrega.
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- A Papel Virtual chega então para ocupar um lugar inexistente?
Tomaz
Adour - Exatamente. No início, ainda sem qualquer divulgação, recebíamos
dois livros por semana para serem analisados e este número foi crescendo
gradualmente. Hoje recebemos entre cinco e dez projetos por dia! No ano
passado, lançamos 100 livros. Só este mês temos 100 para
analisar...
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- Como funciona a rotina de uma editora virtual?
Tomaz
Adour - Basicamente como a de uma editora tradicional. Nosso interesse consiste em estimular o escritor. Se alguém tem um
projeto de qualidade
e deseja publicar, basta mandar para nossa equipe, por e-mail. Chegando em
nossas mãos, passa por uma análise. Se
for aprovado, o autor paga a taxa de publicação (R$ 490) e esse custo
inclui toda a preparação e
edição do livro. Digamos que o autor venda 100 exemplares por ano.
Com esta quantidade ele cobre os gastos iniciais e tem a possibilidade de
vender eternamente, já que este número justifica que o escritor permaneça
na Internet.
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- Numa editora convencional as cifras seriam bem diferentes...
Tomaz
Adour - Sem dúvida. Para um autor desconhecido, as editoras
tradicionais costumam cobrar entre R$ 4 e R$ 6 mil. A editora não vai
correr o risco de bancar um livro que possa encalhar! Com esse preço ela
cobre o custo de pré-produção, edição e o lançamento no mercado. Se
vender, ótimo. Se não vender, basta devolver os livros para o autor. Por
isso tantas pessoas desistem de publicar e ainda ficam frustradas.
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- Mesmo na Internet a divulgação é necessária para que o público tome
conhecimento da existência de um novo escritor. Como a Papel Virtual
administra os lançamentos?
Tomaz
Adour - A promoção dos livros é basicamente de responsabilidade do
autor, mas na página da editora sempre exibimos os lançamentos, temos a
lista dos mais vendidos, exibimos a foto do autor e a capa do livro, com
direito a breve comentários. Fazemos também a noite de autógrafos. O
pique inicial de vendas é sempre
maior, mas os internautas são ótimos descobridores e é isso que mantém
as vendas.
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- Qual a média de venda dos escritores?
Tomaz
Adour - Depende muito. De cara tem gente que vende 150 livros e o ritmo
vai diminuindo com o tempo. Estamos reformulando a página para torná-la
mais ágil e ainda temos planos de viabilizar um jornalzinho da Papel
Virtual para publicar matérias e resenhas sobre os nossos autores.
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- Com todos os aparatos da mídia virtual, pode-se dizer que os internautas
dão retorno?
Tomaz
Adour - Claro! Um ponto interessante é que eles estabelecem contato com
o autor. E não há nada melhor que conhecer, mesmo que virtualmente, um
autor que se admira.
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- Que linha editorial segue a Papel Virtual?
Tomaz
Adour - A editora está aberta. Não temos o critério
rígido de uma editora convencional. O livro pode ser comercial ou não.
Tem que ter qualidade e um mercado em potencial. Se vai
interessar a um pequeno segmento, tudo bem. Será publicado. Que
venda 50 números por ano. Esta quantidade justifica que a obra fique, por
exemplo, mais um ano na Internet, além de cobrir os custos de manutenção
do site.
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- Quanto tempo leva o processo de aprovação, do projeto à publicação?
Tomaz
Adour - Um mês para a publicação da versão digital e dois meses para
a versão impressa. Depois de aprovado o livro é revisado. O passo seguinte
consiste na editoração, que leva aproximadamente 30 dias. A partir deste
momento já pode ser lançanda a versão digital. Se o leitor prefere o
velho e bom papel tem que esperar um pouco mais. Da editoração o livro
segue para a gráfica, onde fazemos a primeira prova. Enviamos a prova para
o autor e após as alterações, eis que está pronta a versão final. Damos
ainda outras opções para o autor, como desenvolvimento de capas, uma
editoração mais elaborada. Depende de quanto quer investir o escritor.
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- E os preços dos livros?
Tomaz
Adour - Temos uma espécie de tabela. Um livro de 200 páginas custa R$
15 e com o frete passa a custar R$ 18. Para a versão digital o cálculo é
diferente, já que o leitor pode comprar trechos da obra. Cobramos R$ 0,3
por página, logo um livro de 200 páginas custa R$ 6 na versão digital.
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- Como fica a questão dos direitos autorais numa editora virtual?
Tomaz
Adour - Este mês está sendo estabelecido um padrão mundial de leitura
digital. As editoras decidiram adotar o padrão PDF, criado, no caso, em
parceria com a Microsoft e Adobe. Todo
mundo sabe que as versões digitais podem ser facilmente copiadas. Uma vez
adotado o padrão, a Papel Virtual passa a adotá-lo automaticamente.
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- Como vai funcionar este software?
Tomaz
Adour - Ao comprar o livro, o cliente vai "receber" um browser
com uma senha. Resultado: o livro só poderá ser lido na máquina do
comprador. Se por um acaso ele
emprestar o arquivo para alguém, não adianta. Não será lido em outro
equipamento. Até março já vai estar em funcionamento dessa forma.
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- Quanto o autor recebe pelos direitos autorias na P&V?
Tomaz
Adour - Nas editoras convencionais os direitos são pagos na proporção
de 10% do preço da capa. Na Papel & Virtual o pagamento é 50% maior,
uma vez que pagamos 15% do preço da capa. A cada três meses a editora
envia para o autor um relatório referente às vendas, acompanhado de um depósito
em conta corrente no valor dos direitos autorais.
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- É possível traçar um perfil dos escritores da Papel Virtual, já que a
editora recebe projetos de todos os lugares do país?
Tomaz
Adour - Realmente temos um banco eclético de escritores. Jovens
romancistas, na faixa dos 20 aos 30 anos. Basicamente pessoas que desejam
ingressar na carreira literária. Muitos deles de Curitiba, Ceará,
Sergipe... interessante é poder descobrir talentos, como foi o caso da
poetisa Denise Visconti, uma nova autora, no auge de seus 50 anos. Ela
acabou de lançar um livro de poesias (Solidões dos Igarapés) , aprovado
pela ABL e repleto de elogios do Josué Montello.
Há também
escritores de trajetória indiscutível que estão apostando na Papel
Virtual. Foi o caso do Virgílio
Moretszon, que tem mais de 12 livros publicados... o novo trabalho dele, um
conto erótico, tem prefácio do Afonso Romano Sant’Anna. É bom constatar
que escritores de peso estão dando aval para a editora.
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- A filosofia da Papel Virtual consiste na apresentação de novos
escritores ao mundo literário. Há interesse, por exemplo, em estabelecer
contato com editoras convencionais?
Tomaz
Adour - A Papel não quer autores com pretensão de vender um milhão de
exemplares. Quer apenas que os escritores entrem no mercado. Uma vez lançado
o trabalho, obtendo êxito, vamos indicá-los para as grandes editoras. O
sucesso do escritor é o sucesso da editora. E o escritor que publicar com a
gente não está “preso”. Só precisa cumprir o "aviso prévio"
para sair. Tempo suficiente para tirar a obra do ar.
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- Onde quer chegar à Papel Virtual?
Tomaz
Adour - Quero enveredar por três vertentes. O primeiro nicho seria o
mercado de ficção, nosso segmento de estréia e que tem nos dado um
retorno muitíssimo interessante. Mas há outras duas áreas para serem
exploradas. A acadêmica, geralmente renegada por editores convencionais,
portanto a idéia é criar um banco de teses. Quero acabar com a política
da fotocópia - a indústria copiadora movimenta R$ 300 milhões por ano,
esquecendo a questão dos direitos autorais.
Por fim, vamos entrar num antigo mercado: dos livros esgotados. Todas as
editoras têm um catálogo enorme dos livros esgotados e esses livros,
muitas das vezes, não justificam uma nova tiragem de mil exemplares em
papel off-set, por emplo.Formar
uma parceria com as editoras vai ser bom para ambas as partes. Já estamos
em contato com a Ediouro e a Nova Fronteira.
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- Seria o fim dos sebos?
Tomaz
Adour - De forma alguma. Os colecionadores sempre vão ser ratos de
sebos. Vamos disponibilizar apenas o conteúdo... não tem a bossa de uma
edição rara. Mas, sem dúvida, vamos acabar com a postura da cultura
desperdiçada. Hoje é difícil encontrar livros do início do século.
Com a Internet as obras ficam disponíveis eternamente.
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